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Em
18 de fevereiro de 2005, comemorou-se o centenário
de nascimento da professora e poetisa paraibana Anayde Beiriz.
Os malucos do Crazy Man aproveitam a data para resgatar
a memória desta mulher que, de certa forma, ajudou
a mudar a história do Brasil
COADJUVANTES
DA HISTÓRIA
A história oficial
que todos conhecem normalmente se concentra nos fatos principais
e nos personagens mais relevantes. Porém sempre existem
aqueles personagens que agem nos bastidores e que não
se destacam no primeiro plano dos fatos, porém sua
presença e ações acabam influenciando
de forma indelével o rumo da história. Normalmente
por injustiça ou simplesmente por um excesso de simplificação
dos fatos históricos, estes personagens acabam sendo
desconhecidos da maioria das pessoas.
E nesta categoria de coadjuvantes da história oficial,
as mulheres são presença garantida. Muitas
vezes a sua presença acaba mudando a história.
Foi por causa de Ana Bolena que Henrique VIII rompeu com
a igreja católica e implantou o anglicanismo na Inglaterra,
só para citar um exemplo.
E na nossa história temos algumas mulheres interessantes,
que estiveram ao lado de personagens poderosos ou participaram
ativamente da história, sem serem devidamente lembradas.
Anita Garibaldi, Ana Nery, Maria Quitéria, Xica da
Silva, Marquesa dos Santos, entre outras.
Na história do Brasil do século XX, uma mulher
acabou envolvida com personagens que sairiam da vida para
entrar na história, e os fatos que vivenciaram culminaram
com a Revolução de 30, a qual mudou a história
do Brasil por completo. Seu nome era Anayde Beiriz, e na
última sexta-feira, 18 de fevereiro, completaria
100 anos, se ainda viva.
CAFÉ+LEITE=REVOLUÇÃO
Só para lembrar
aqueles que faltaram a aula de história do Brasil,
a República recém estabelecida no Brasil em
fins do século XIX à base da espada se transformou
na república “Café com Leite”,
pois desde que os civis assumiram a presidência com
Prudente de Morais, em 1894, revezaram-se no poder candidatos
apoiados pelas oligarquias do Sul, capitaneadas pelos produtores
de café de São Paulo e pelos barões
mineiros do leite. Esta política se . Inicialmente
esta política se baseava nas Oligarquias Estaduais,
que apoiavam o Governo Central e orientavam o eleitorado
local a votar em seus candidatos. A figura do Coronel é
emblemática, já que ele era uma espécie
de “senhor feudal” dentro de sua área
de influência, ditando a lei e os modos daqueles que
viviam sob sua influência.
Aos poucos, o Coronelismo acabou cedendo lugar a política
dos governadores, que apoiavam o governo federal em troca
de favores, o velho e conhecido “toma lá, dá
cá”. Isso não significa que os Coronéis
perderam força. Pelo contrário, a disputa
entre grupos e clãs distintos foi um dos motivos
para desencadear a Revolução.
Com os magnatas do Café e do Leite ditando o poder,
estes colocaram no Palácio do Catete seus candidatos
durante as primeiras décadas do século XX.
Obviamente havia muita insatisfação, tanto
popular quanto de grupos políticos não favorecidos
por esta política. Além dos próprios
militares, principalmente o oficialato jovem. Este período
acabou sendo muito conturbado, marcado por revoltas populares
ou conflitos com militares amotinados. A Guerra de Canudos,
a Revolta da Chibata, os movimentos tenentistas, aí
incluída a Coluna Prestes. A todos estes movimentos,
o Governo Federal reagia com peculiar brutalidade, conseguindo
manter o “status quo”.
Neste clima é que o paulista Washington Luís
assume a presidência em 1926. Este simpático
senhor entrou para a história com duas frases célebres:
“Governar é abrir estradas”, e “A
questão social é um caso de polícia”.
Ou seja, o negócio era construir estradas e descer
o cacete em quem achasse ruim.
Mas quem começou a achar ruim foram os empresários
mineiros. Pela lógica do “Café com Leite”,
o próximo presidente deveria ser mineiro. Mas Washington
Luis apóia um outro paulista, Júlio Prestes.
O Presidente de Minas, cargo equivalente ao de governador,
solta mais uma pérola que entraria para a história:”Façamos
a Revolução antes que o povo a faça”.
Esta frase de Antonio Carlos Ribeiro de Andrada retrata
o que seria a Revolução de 30: não
uma revolta legitimada pelo anseio popular, e sim por camadas
da elite nacional que estavam alijadas do poder.
Os
mineiros rompem com os paulistas, e o Café com Leite
desanda. Sem força política para fazer frente
a candidatura paulista, busca apoio no Rio Grande do Sul,
e surge a Aliança Liberal. O candidato escolhido
para concorrer com Júlio Prestes é o gaúcho
Getúlio Vargas, e seu vice viria da Paraíba.
João Pessoa era presidente da Paraíba, e acaba
rompendo com o Partido Republicano Paulista de Júlio
Prestes e entra na chapa da AL. Este episódio passou
a ser conhecido como o “Nego”, que é
tema da atual bandeira da Paraíba.
Falando em Paraíba, João Pessoa acaba comprando
briga com os clãs Pereira e Suassuna, que apóiam
o Governo Federal. José Pereira comandava o município
de Princesa, e devido a desavenças com o Governo
estadual, acaba decretando a “república de
Princesa” com seus jagunços armados, em fevereiro
de 1930, poucos dias antes das eleições. A
cidade se torna “território livre”, e
os Pereira tem o franco apoio do Palácio do Catete
e de Recife.
Dias depois, nas eleições de março,
vence Júlio Prestes, apesar das fraudes de ambas
as partes. Como era de se esperar, o candidato do governo
vence. Apesar da posição dúbia de Vargas,
que oferece apoio ao novo governo ao mesmo tempo em que
aposta na possibilidade de revolta, muitos segmentos se
articulam em torno de um possível golpe.
Na Paraíba, o clima não estava dos melhores.
Rompido com o governo federal e envolvido com a Guerra de
Princesa, temia-se uma intervenção federal
no Estado, francamente apoiada pelos Suassuna e Pereira.
UMA PANTERA DOS
OLHOS DORMENTES
Mas tanto falatório
foi só para situar o leitor no contexto histórico
daquela época. Agora vamos a nossa personagem principal.
A paraibana Anayde Beiriz nasceu em 18 de fevereiro de 1905.
Durante os estudos, acabou se destacando nos mesmos. Formou-se
na Escola Normal no início dos anos 20 e passou a
ensinar para pescadores da então vila de Cabedelo.
Anayde era uma bela mulher, tanto que ganha um concurso
de beleza promovido em 1925 pelo Correio da Manhã.
Mas o que chamava a atenção eram os seus olhos
negros, os quais lhe valeram a alcunha, entre os amigos,
de “pantera dos olhos dormentes”. Se considerarmos
a mentalidade conservadora da sociedade brasileira à
época, especialmente a paraibana, Anayde não
era bem vista devido a suas idéias progressistas.
Ela estava envolvida em movimentos artísticos, pois
era poetisa e freqüentava saraus literários,
defendia a participação das mulheres na política
em uma época que elas sequer podiam votar. Também
ousava pelas roupas que usava, abusando de decotes, e pelo
corte de cabelo, “a lá garçonne”.
Não era afeita as convenções no que
tange a relacionamentos amorosos. E foi um destes relacionamentos
que a fez entrar para a história.
O AMOR EM TEMPOS
DE CÓLERA
Em 1928, ela começa um relacionamento amoroso com
o advogado João Dantas. Este está envolvido
na política local, e sua família estava alinhada
com os Suassuna. Era um “perrepista”, os assim
chamados àqueles que apoiavam o Partido Republicano
e a candidatura oficial do governo. Com o conflito entre
liberais e perrepistas se acirrando após as eleições
e as escaramuças na cidade de Princesa, o advogado
acaba se refugiando em Recife, mantendo o relacionamento
com Anayde à distância, através de cartas.
João Pessoa, acuado pelos adversários, reage
e manda revistar as casas dos revoltosos e suspeitos, em
busca de armas que poderiam ser utilizadas em uma revolta
armada. Uma destas casas foi o apartamento do advogado João
Dantas na capital da Paraíba, a época também
chamada Paraíba. A Polícia invade o misto
de escritório e morada do advogado em 10 de julho
de 1930. Não são encontradas armas, mas durante
a invasão, os policiais destroem o escritório
e arrombam o cofre. Lá encontram a correspondência
de Dantas, incluindo as cartas e poemas de amor entre ele
e Anayde.
Neste ponto há uma controvérsia, pois se tornou
comum nos livros de história afirmar que esta correspondência
teria sido publicada no jornal do governo estadual, A União.
Alguns afirmam que isso não ocorreu, mas que as cartas
teriam circulado de mão em mão. De qualquer
forma, o teor altamente escandaloso dos poemas e cartas
tornou-se de conhecimento público, causando escândalo.
Sentindo-se ferido em
sua honra, João Dantas quis lavá-la com sangue.
E o fez. No dia 26 de julho, quando João Pessoa estava
na Confeitaria Glória, em Recife, João Dantas,
acompanhado de um cunhado Augusto Caldas, entra e dispara
contra o peito do Presidente da Paraíba. A morte
de João Pessoa causa comoção geral
na Paraíba e no país, e é o estopim
que desencadeia o levante dos revoltosos, que se rebelam
em definitivo em outubro, pouco antes da posse de Júlio
Prestes. Um mês depois, Getúlio se estabelece
como Presidente, a princípio provisoriamente, mas
ele estaria presente na vida pública em dois mandatos
presidenciais, e sairia apenas quando morto, em agosto de
1950. Na Paraíba, a capital é renomeada para
o atual nome de João Pessoa, e a bandeira se inspira
no “Nego”, adotando a expressão, além
das cores vermelha e negra, representando o sangue e o luto,
respectivamente.
Já Anayde se
sentiu acuada após o assassinato de João Pessoa,
pois todos a perseguiam por razões morais e políticas.
Ela abandona sua casa e vai morar em um abrigo na cidade
de recife. Lá passa a visitar João Dantas,
preso imediatamente após o crime. Este é achado
morto nos primeiros dias da Revolução, supostamente
por suicídio, mas em circunstâncias pouco claras.
A própria Anayde é encontrada morta em 22
de outubro daquele ano, supostamente por envenenamento,
sendo enterrada como indigente no cemitério de Santo
Amaro.
A memória de Anayde foi resgatada principalmente
após a publicação do livro de José
Jofilly, intitulado “Anayde – Paixão
e Morte na revolução de 30”. Em 1983
Tizuka Yamasaki dirige o filme “Paraíba Mulher
Macho”, no qual procura contar a história da
Revolução de 30 sob a ótica do caso
João Dantas e Anayde Beiriz.
UM LIVRO CONTESTA
A HISTÓRIA
Aproveitando
o centenário de nascimento da poetisa, o médico
e escritor Marcus Aranha lançou a poucos dias o livro
“Anayde Beiriz – Panthera dos Olhos Dormentes”.
O enfoque deste livro, ao contrário do livro de José
Joffily, não são os fatos históricos
da Revolução de 30. De fato, o médico
traz novos fatos sobre a vida amorosa de Anayde, e polemiza
ao afirmar que o grande amor de Anayde não teria
sido João Dantas, e sim o jovem estudante de Medicina
Heriberto Paiva, que posteriormente teria se tornado oficial
da Marinha. Para escrever este livro, o autor utilizou-se
de trechos do diário de Anayde, cartas, documentos
pessoais, alguns inéditos, material fornecido por
familiares da poetisa e professora.
Ao se ler a correspondência
de Anayde, pode se ter uma idéia da personalidade
daquela mulher, um misto de romantismo e ousadia. Abaixo
transcrevemos um trecho de uma carta enviada a Heriberto
Paiva, a quem ela chamava carinhosamente de “Hery”.
“(...) O amor
que não se sente capaz de um sacrifício não
é amor; será, quando muito, desejo grosseiro,
expressão bestial dos instintos, incontinência
desvairada dos sentido, que morre com o objetivar-te, sem
lograr atingir aquela atura onde a vida se torna um enlevo,
um doce arrebatamento, a transfiguração estética
da realidade... E eu não quero amar, não quero
ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando
o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio;
nem a saudade faria reviver em nossos corações
a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia
de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual
tínhamos sonhado eternos.
Mas não me
julgues por isto diferente das outras mulheres; há,
em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade
primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento
dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças
vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente
dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou pelo poder
selético e dignificador da cultura.
Não amamos
num homem apenas a plástica ou o espírito:
amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não
temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as
formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível
que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse
é para vocês um sonho ou raia às lides
do impossível. Não, meu Hery, não é
assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse
sentimento concentram, por vezes, todas as forças
da sua individualidade física ou moral.
É pois assim
que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz
de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa
lento, mas passa...
...E porque ele passa,
e porque a noite já vai alta, é-me preciso
terminar.
Adeus. Beija-te longamente,
Anayde”
PARA SABER
MAIS
Além do livro de José Jofilly e do novo livro
de Marcus Aranha, também foi lançada a biografia
de João Dantas há poucos anos. E, em João
Pessoa, estão sendo promovidos eventos e exposições
em comemoração ao centenário de Anayde.
A casa da poetisa, onde atualmente funciona uma cantina,
foi tombada pelo patrimônio histórico desde
2002, graças a iniciativa de pesquisadores.
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